Entrevista a Tiago Botelho



O treinador do FC Crato concede uma entrevista sobre os objectivos para a temporada que se iniciou recentemente. Tiago Botelho também fala sobre os problemas do futebol distrital, apontando um caminho interessante para a sobrevivência das equipas amadoras no nosso país.


Quais são os objetivos para a temporada?
  
No FC Crato os objetivos passam sempre por vencer. Nos últimos anos o clube tem vencido campeonatos distritais, taças e supertaças organizadas pela Associação de Futebol de Portalegre e também participado no CNS e Taça de Portugal. Para esta época o plantel foi idealizado para conseguirmos fazer melhor do que na época passada. É um plantel que tem elementos muito experientes, com qualidade e jogadores mais novos que trazem a irreverência que muitas vezes precisamos para mexer com os jogos mais fechados e complicados.


Qual é o adversário mais complicado de ultrapassar na prossecução dos objetivos?

O nosso atual contexto não é o mais favorável. A nível distrital praticamente todas as equipas têm excelentes infraestruturas para trabalhar, vontade, capacidade técnica e conhecimento mas, estamos perante um êxodo permanente de jovens que pelas mais variadas razões têm de sair do distrito para procurar outras condições de vida. O distrito de Portalegre é o único do País que (ainda?) não tem um curso superior de desporto. Os jovens que pretendem prosseguir a sua formação e estudos precisam de ir estudar para outros distritos e isso inviabiliza que possam continuar a jogar nos nossos clubes.
Estamos a perder jogadores de ano para ano e isso é um dos nossos maiores adversários. Há enormes dificuldades em conseguir juntar 18 ou 19 jogadores com disponibilidade para jogar e treinar durante a semana. Outro grande adversário é a falta de apoios e patrocínios das empresas. Os clubes conseguem sobreviver apenas com os subsídios camarários e pouco mais. Mas acredito que se conseguirmos apresentar bons jogos e bons espetáculos de futebol os adeptos vão regressar às bancadas e o futebol voltará a ter a influência e a importância de outros tempos.

Quais foram os principais aspetos positivos da pré-temporada?

A pré-época é a altura que aprofundamos as ideias que queremos para toda a temporada. É nessa altura que preparamos a nossa forma de jogar. Claro que ao longo da época vamos fazendo ajustes, mas nunca nada de muito substancial. Nesta altura os resultados não indicam nada. Mas se desde o início conseguirmos juntar a implementação de ideias com os resultados, o processo será assimilado mais rápido porque os jogadores veem frutos do seu trabalho.

Que tipo de problemas enfrenta o Futebol Distrital em Portugal numa altura em que se aposta mais nas ligas profissionais?

Creio que os problemas do Futebol Distrital são diferentes em cada Distrito. Em Lisboa e Porto certamente que não há dificuldade em recrutar jogadores. Mas talvez tenham problemas a nível de logística e de campos para treinar uma vez que há muitas equipas seniores e  de formação. Sei que há equipas de seniores que durante a semana têm de treinar em 2 ou 3 campos e andar com as “malas às costas” de um lado para o outro. Treinam muitas vezes depois das 21h. Estes são o tipo de problemas dos grandes distritos. Por seu lado, os mais pequenos têm outro tipo de problemas como a escassez de jogadores e de financiamento, além dos campeonatos serem pouco competitivos…

 Haverá o risco de serem as equipas a comandarem o rumo do Futebol Distrital no curto prazo?

A curto prazo o que deveria acontecer é a criação da 3ª divisão. O Campeonato de Portugal é atualmente profissional. Há clubes com orçamentos estratosféricos em comparação com os clubes mais humildes. A “febre” das SAD’s veio agudizar ainda mais este problema. São investimentos enormes que acabam por secar todos os outros clubes. Não há muito interesse em participar numa prova como o CP quando os custos são praticamente incomportáveis. Na minha opinião devia de haver a 1ª Liga, 2ª Liga, Campeonato de Portugal dividido em 2 séries de 18 ou 20 equipas, 3ª Divisão dividido em 6 ou 8 séries e depois os distritais. Só assim poderia haver algum equilíbrio na competição. Clubes com SAD podiam jogar entra elas nos campeonatos profissionais e semi-profissionais e as restantes jogavam na 3ª Divisão e Distritais. E quem quisesse jogar nas competições profissionais teria de cumprir determinados requisitos tais como, uma percentagem gasta no futebol sénior teria de ser investido na formação do clube e dos agentes desportivos, teria de ter condições mínimas para a Formação, tais como, treinadores credenciados, fisioterapeutas, psicólogos e tutores. Outra ideia é a criação de Centros de Formação e Otimização de Excelência em todos os distritos. Seriam centros geridos pela FPF através dos coordenadores técnicos das Associações Distritais onde todas as semanas os jogadores de cada escalão que fossem identificados como os melhores pudessem treinar em conjunto. Serviria para melhorar a qualidade dos jogadores e também para a FPF conseguir controlar e seguir os melhores jogadores mesmo em distritos como o de Portalegre que tem pouca visibilidade. É normal que quando vemos as convocatórias das seleções jovens só haja praticamente jogadores de 4 ou 5 clubes. Porque os selecionadores não vêm ao nosso distrito ver “in loco” os nossos jogadores porque simplesmente acreditam que não há qualidade nem potencial. Mas os nossos jogadores inseridos num contexto de exigência e excelência podem ser tão bons ou melhores do que os outros. Porque têm qualidades que começam a escassear no futebol nacional. Ainda jogam nos ringues sem a orientação de treinadores e são capazes de resolver os problemas do jogo de forma mais criativa. Falta é um contexto de maior exigência e excelência. Os Centros de Formação e Otimização de Excelência podem ser a solução para mais e melhores jogadores. Apesar das redes de observadores dos grandes clubes estar espalhada por todo o distrito ainda há muitos que só precisam de um estímulo e exigência para poderem sonhar em jogador futebol nas divisões profissionais.


 A criação da Liga Sub-23 impede que os jovens queiram evoluir nas equipas dos distritais?

A carreira de jogador é curta e é normal que quem tem ambição de jogar ao mais alto nível queira chegar aos clubes e ligas melhores o mais rápido possível. Mas o que acontece é que muitas vezes estas equipas de sub-23 são locais para colocar jogadores estrangeiros me detrimento dos portugueses. Jogadores que muitas vezes não têm metade da qualidade dos portugueses formados nesses clubes. Mas o negócio obriga-os a jogar. Mas eu defendo que a qualidade não tem idade nem nacionalidade. Até podem criar ligas sub-20, sub-21, sub-22, sub-23, sub-24, o problema vai continuar sempre a ser o mesmo. Se um treinador apostar num miúdo de 20 anos e não conseguir ter logo rendimento no 1º ou 2º jogo, o jogador fica logo rotulado como “fraco”. Vai terminar o contrato e ter de ir para um clube mais pequeno para poder jogar. E se um treinador estiver a passar por uma fase de resultados negativos nunca vai apostar num jogador mais novo porque lhe “falta a experiência”, mesmo que o mais novo seja melhor…

O escalão pode beneficiar com a participação de clubes históricos como o Belenenses?


 O futebol é um jogo de tradições. E os clubes históricos fazem falta. Muitas vezes tiveram de baixar de divisão porque não conseguiram modernizar-se e acompanhar as novas tendências. Mas estamos novamente a assistir ao ressurgimento de alguns. Devido ao prestígio que os clubes que participam nos Sub-23 têm, creio que o Campeonato de Portugal se tornou algo um pouco marginal. Mas a base do futebol nacional são os distritais e o CP. Não podemos avaliar o futebol português apenas pelos 3 grandes. Esses são 3 ilhas que dominam e secam tudo e todos. É preciso investir na base da pirâmide para que haja sustentação. Actualmente a pirâmide do futebol português está demasiado frágil na base e o topo está muito “pesado”. Qualquer dia pode cair e já nem os 3 grandes se safam.

Comentários